Christopher Hitchens
Se você pegar qualquer dos quatro
Evangelhos e o ler ao acaso, não irá demorar a perceber que esse ou aquele ato
ou dito atribuído a Jesus é assim para que uma antiga profecia se realize.
Falando da chegada de Jesus a
Jerusalém, em lombo de burro, Mateus diz em seu capítulo 21, versículo 4:
"Isso aconteceu para se cumprir o que foi dito pelo profeta." A
referência provavelmente é a Zacarias 9:9, em que é dito que, quando o Messias
chegar, estará em lombo de um jumento. Os judeus ainda estão esperando essa
chegada, e os cristãos alegam que ela já ocorreu!
Se parece estranho que uma ação deva
deliberadamente ocorrer a fim de que uma previsão se realize, isso é porque é
estranho. E é necessariamente estranho porque o "Novo" também é obra
de carpintaria ruim, encaixado muito depois dos supostos acontecimentos e cheio
de tentativas improvisadas de fazer as coisas parecerem certas. Por uma questão
de concisão, eu devo me render a um escritor melhor que eu e citar o que H. L Mencken
diz de forma irrefutável em seu Treatise on the Gods:
O
fato simples é que o Novo Testamento, como o conhecemos, é uma acumulação
atabalhoada de documentos mais ou menos divergentes, alguns deles provavelmente
de origem respeitável, mas outros claramente apócrifos, e a maioria deles,
tanto os bons quanto os ruins, mostram sinais inequívocos de terem sido
adulterados.
O FILME “A PAIXÃO DE CRISTO”
Em 2004 foi produzido um filme
melodramático sobre a morte de Jesus por um fascista e canastrão australiano
chamado Mel Gibson. O sr. Gibson é membro de uma seita católica excêntrica e
cismática composta basicamente por ele e seu pai ainda mais marginal e afirmou
que é uma pena que sua própria esposa querida vá para o inferno porque não
aceita os sacramentos certos. Ele serenamente define esse destino horrendo como
"uma afirmação da cátedra". A doutrina de sua própria seita é
explicitamente antissemita e o filme não se cansa de atribuir aos judeus a
culpa pela crucificação. Apesar dessa intolerância óbvia, que produziu críticas
de cristãos mais cautelosos, “A Paixão de Cristo” foi utilizado de forma oportunista
por muitas igrejas "hegemônicas" como uma ferramenta de recrutamento.
Em um dos eventos publicitários ecumênicos que patrocinou, o sr. Gibson
defendeu sua mixórdia fílmica — que é também um exercício de homoerotismo
sadomasoquista estrelado por um ator principal sem qualquer talento,
aparentemente nascido na Islândia ou em Minnesota — como sendo baseada nos
relatos de "testemunhas oculares".
Na época eu considerei
extraordinário que uma produção multimilionária pudesse ser abertamente baseada
em uma alegação tão claramente fraudulenta, mas ninguém pareceu se incomodar.
Mesmo as autoridades judaicas em sua maioria mantiveram o silêncio. Mas depois
alguns deles quiseram abafar essa velha discussão, que por séculos levou a
pogrons pascais contra os "judeus assassinos de Cristo". Apenas duas
décadas depois da Segunda Guerra Mundial o Vaticano formalmente retirou a
acusação de teocídio contra o povo judeu como um todo. E a verdade é que os
judeus costumavam pedir o crédito pela crucificação.
OS EVANGELHOS
Os quatro evangelhos presentes hoje
no Novo Testamento não são forma alguma de registro histórico. Seus muitos autores
— nenhum dos quais publicou qualquer coisa até muitas décadas após a crucificação
— não conseguem concordar em nada importante.
Mateus e Lucas não chegam a um
acordo sobre o Nascimento Virginal ou a genealogia de Jesus. Eles se contradizem
completamente na "Fuga para o Egito", com Mateus dizendo que José foi
"avisado em um sonho" a fugir imediatamente e Lucas dizendo que todos
os três permaneceram em Belém até a "purificação de Maria de acordo com as
leis de Moisés", o que demoraria quarenta dias, e então retornaram a
Nazaré através de Jerusalém. (Apenas de passagem, se a fuga para o Egito de
modo a proteger uma criança da campanha infanticida de Herodes tiver algum
fundo de verdade, então Hollywood e muitos, muitos iconógrafos cristãos têm nos
enganado. Teria sido muito difícil levar um bebê louro e de olhos azuis para o
delta do Nilo sem atrair atenção.
O Evangelho de Lucas afirma que o
nascimento milagroso ocorreu em um ano em que o imperador César Augusto ordenou
um censo com objetivos fiscais, e que isso aconteceu na época em que Herodes
reinava na Judeia e Quirino era governador da Síria. Isso é o mais perto de
triangulação de datas históricas a que qualquer autor bíblico já chegou. Mas
Herodes morreu quatro anos "a.C.", e durante seu reinado o governador
da Síria não era Quirino. Nenhum historiador romano faz menção a qualquer censo
de Augusto, mas o cronista judeu Josefo menciona um que ocorreu — sem a
exigência custosa de que as pessoas retornassem a seu local de nascimento e
seis anos após o suposto nascimento de Jesus. Isso, evidentemente, é uma
reconstrução oral truncada realizada em um momento consideravelmente posterior
ao "fato".
Os escribas não conseguem sequer
concordar sobre os elementos míticos: eles discordam abertamente sobre o Sermão
da Montanha, a unção de Jesus, a traição de Judas e a obsedante
"negação" de Pedro. Ainda mais chocante, eles não conseguem produzir
um mesmo relato da Crucificação ou da Ressurreição. Assim, a única interpretação que temos de descartar é
simplesmente a de que todas as quatro têm mandato divino. O livro no qual todos
os quatro podem ter se baseado, especulativamente conhecido pelos estudiosos
como "Q", se perdeu para sempre, o que parece algo claramente
descuidado da parte do deus que alegadamente o "inspirou".
Há sessenta anos, em Nag Hammadi, no
Egito, foi descoberto um tesouro de "Evangelhos" esquecidos perto de
um sítio cristão copta muito antigo. Os pergaminhos eram do mesmo período e da
mesma origem de muitos dos posteriores Evangelhos canônicos e
"autorizados" e havia muito tinham recebido o nome genérico de
"gnósticos". Esse foi o título dado a eles por um certo Irineu, um dos
primeiros pais da Igreja, os baniu como sendo heréticos. Entre eles estão os "Evangelhos"
ou as narrativas de personagens secundários, mas significativos, do "Novo"
Testamento aceito, como o "Tomé Dídimo" e Maria Madalena.
Há também o Evangelho de Judas, que
havia séculos sabia-se que existia, mas que agora foi revelado e publicado pela
National Geographic Society na primavera de 2006. O livro é basicamente
baboseira espiritualista, como era de esperar, mas oferece uma versão dos
"acontecimentos" que é um pouco mais crível do que o relato oficial. Isso
torna fácil entender por que ele foi tão categoricamente banido e atacado: o
cristianismo ortodoxo não passa de uma realização e conclusão daquela história
cruel. Judas participa da última refeição da Páscoa, como de hábito, mas se
afasta do roteiro habitual. Quando Jesus parece lamentar que seus outros
discípulos saibam tão pouco sobre o que está em jogo, seu seguidor patife diz claramente
que acredita saber qual é a dificuldade. "Eu sei quem você é e de onde veio",
diz ele ao líder. "Você vem do reino imortal de Barbelo". Esse
"Barbelo" não é um deus, mas um destino celestial, uma terra natal
além das estrelas. Jesus vem desse reino celeste, mas ele não é filho do Deus mosaico.
Em vez disso, ele éum avatar de Set, o terceiro e menos conhecido filho de
Adão. Ele é aquele que mostrará aos sétios o caminho de casa.
Reconhecendo que Judas é pelo menos
um pequeno membro desse culto, Jesus o chama de lado e dá a ele a missão de
ajudá-lo a abandonar sua forma carnal e assim retornar ao céu. Ele também
promete mostrar as estrelas que permitirão a Judas segui-lo.
Por mais que isso seja uma ficção
científica enlouquecida, faz infinitamente mais sentido do que a maldição
eterna lançada sobre Judas por fazer o que era necessário nessa crônica, afora
isso, pedantemente produzida de uma morte anunciada. Também faz infinitamente
mais sentido do que culpar os judeus por toda a eternidade. Durante muito tempo
houve um debate acalorado sobre quais dos "Evangelhos" deveriam ser
considerados divinamente inspirados. Alguns defendiam esses, e alguns, outros,
e muitas vidas se perderam de forma horrível em função disso. Ninguém se deu o
trabalho de dizer que todos foram escritos pelo homem muito depois do suposto
drama ter terminado, e o "Apocalipse" de São João parece ter sido
contrabandeado para o cânone por causa do nome (bastante comum) de seu autor.
Mas como disse Jorge Luis Borges, se os gnósticos alexandrinos tivessem vencido,
algum Dante posterior teria oferecido a nós um hipnoticamente belo retrato escrito
das maravilhas de "Barbelo".
Eu poderia escolher chamar esse conceito
de "o folhelho Borges": a verve e a imaginação necessárias para
visualizar um corte de ramos e arbustos evolucionários, com a possibilidade
extraordinária mas real de que um diferente ramo ou linha (ou música, ou poema)
tivesse predominado no labirinto. Grandiosos tetos, campanários e hinos, poderia
ele ter acrescentado, o teriam consagrado, e torturadores habilidosos teriam
trabalhado durante dias naqueles que duvidassem da verdade de Barbelo:
começando com as unhas dos dedos e abrindo caminho engenhosamente até os testículos,
a vagina, os olhos e as vísceras. A descrença em Barbelo iria, de forma correspondente,
ter sido um sinal inequívoco de que a pessoa não tinha qualquer moral. Este é o
melhor argumento que conheço para a altamente questionável existência de Jesus.
Seus discípulos sobreviventes analfabetos não nos deixaram qualquer registro, e
de qualquer forma nunca poderiam ter sido "cristãos", já que nunca
iriam ler esses livros posteriores em que os cristãos precisam afirmar a
crença, e de qualquer forma não teriam qualquer ideia de que alguém iria um dia
fundar uma igreja com base nos pronunciamentos de seu mestre. Também não há uma
só palavra em qualquer dos Evangelhos posteriormente montados que indique que Jesus
queria ser o fundador de uma Igreja.
Apesar de tudo isso, as profecias do
Velho Testamento indicam que o Messias nasceria na cidade de Davi, que de fato
parece ter sido Belém. Porém, os pais de Jesus aparentemente eram de Nazaré e,
se tiveram um filho, ele mais provavelmente nasceu naquela cidade. Assim, um
enorme volume de falsificações — relativas a Augusto, Herodes e Quirino — está
envolvido na criação da história do censo e na transferência da cena da
natividade para Belém (onde, por falar nisso, nunca é mencionado qualquer
"estábulo"). Mas por que tudo isso, quando uma falsificação muito
mais simples seria fazê-lo nascer diretamente em Belém, sem qualquer obrigação
desnecessária? As próprias tentativas de consertar e ajeitar a história poder
ser a prova contrária de que alguém de posterior importância de fato nasceu, de
modo que retrospectivamente, e para cumprir as profecias, as provas teriam de
ser um pouco trabalhadas. Mas então, mesmo minha tentativa de ser justo e
aberto neste caso é prejudicada pelo Evangelho de João, que parece sugerir que Jesus
nem nasceu em Belém nem era descendente do rei Davi. Se os apóstolos não sabem
ou não conseguem entrar em acordo, qual o valor disso para minha análise?
Seja como for, se a linhagem real é
algo do que se orgulhar e sobre o que profetizar, por que a insistência em
outros pontos em um nascimento aparentemente humilde?
Quase todas as religiões, do budismo
ao islamismo, apresentam ou um profeta humilde ou um príncipe que se identifica
com os pobres, mas o que é isso a não ser populismo? Não surpreende que as
religiões escolham se dirigir primeiramente a maioria de pobres, sofridos e
ignorantes.
As contradições e ignorâncias do
Novo Testamento encheram muitos livros de estudiosos importantes, e nunca foram
explicadas por qualquer autoridade cristã a não ser em termos medíocres de
"metáfora" e "um Cristo de fé". Essa mediocridade deriva do
fato de que até recentemente os cristãos podiam simplesmente queimar ou silenciar
qualquer um que fizesse perguntas inconvenientes. Os Evangelhos, porém, são
úteis para mais uma vez demonstrar o mesmo ponto que os capítulos anteriores, o
de que a religião é criação do homem. A lei é dada por Moisés, mas a graça e a verdade
vêm de Jesus Cristo, diz São João.
São Mateus busca o mesmo efeito, baseando
tudo em um versículo ou dois do profeta Isaías, que disse ao rei Acaz, quase
oito séculos antes da data ainda não definida do nascimento de Jesus que
"o senhor dará a você um sinal: uma virgem irá conceber e dar à luz um
filho". Isso encorajou Acaz a acreditar que conseguiria a vitória sobre
seus inimigos (o que no final, mesmo se você considerar esta história uma
narrativa histórica, ele não conseguiu). O quadro é alterado ainda mais quando
sabemos que a palavra traduzida como virgem, especificamente “almah”, significa
apenas "uma mulher jovem". Seja como for, a partenogênese não é
possível em mamíferos humanos, e, mesmo se essa lei fosse violada apenas em um
caso, isso não provaria que o bebê resultante teria qualquer poder divino.
Assim, e como de hábito, a religião levanta suspeitas ao tentar provar demais.
Por analogia inversa, o Sermão da Montanha replica Moisés no monte Sinai, e os
discípulos não descritos fazem o papel dos judeus que seguiram Moisés para todo
canto, fazendo com que dessa forma a profecia seja cumprida para qualquer um
que não perceba ou não se importe com o fato de a história estar sendo
produzida por "engenharia reversa", como podemos dizer hoje.
Em um pequeno trecho de apenas um
Evangelho (aproveitado pelo agressor de judeus Mel Gibson), os rabinos são
colocados a repetir Deus no Sinai e realmente pedir que a culpa pelo sangue de
Jesus seja transmitida a todas as gerações subsequentes: um pedido que, mesmo
que devesse ser feito, estava bem além do seu direito e do seu poder.
Mas o caso da Imaculada Conceição é
a prova mais fácil de que humanos estiveram envolvidos na produção de uma
lenda. Jesus faz grandes alegações sobre seu pai celestial, mas nunca menciona
que sua mãe é ou era virgem, e é repetidamente rude e grosseiro com ela quando
aparece, como fariam mães judaicas, para perguntar ou descobrir como ele estava
indo. Ela própria parece não ter lembrança da visita do arcanjo Gabriel ou do
enxame de anjos, todos dizendo que ela era a mãe de Deus. Em todos os relatos,
tudo o que seu filho faz se revela a ela como uma completa surpresa, quando não
um choque. O que poderia ele estar fazendo conversando com os rabinos no
templo?
O que ele está dizendo quando lembra a ela de forma lacônica que está
no negócio do seu pai? Seria de esperar uma forte lembrança materna,
especialmente em alguém que passou pela experiência,única entre todas as
mulheres, de se descobrir grávida sem ter passado pelas notórias condições para esse estado de graça.
Lucas chega mesmo a cometer um deslize revelador em dado momento ao falar sobre
os "pais de Jesus" ao se referir unicamente a José e Maria quando
eles visitam o templo para sua purificação e são saudados pelo velho Simeão,
que pronuncia seu maravilhoso Nunc dimittis, que (outro de meus velhos coros
prediletos) também pode ser um pretendido ecoar de Moisés vislumbrando a Terra
Prometida apenas em idade extremamente avançada.
Há então a questão extraordinária da
grande prole de Maria. Mateus nos informa que havia quatro irmãos de Jesus e
também algumas irmãs. No Evangelho de Tiago, que não é canônico mas também não
é descartado, temos o relato de um irmão de Jesus de mesmo nome, que
evidentemente era muito atuante nos círculos religiosos na mesma época. Vamos
aceitar que Maria pudesse te "concebido"
como virgo intacta e dado à luz um bebê, o que certamente a teria deixado menos
intacta nesse sentido. Mas como ela continuou a produzir filhos com o homem
José, que só existe no discurso registrado e assim criou uma família sagrada
tão grande que as "testemunhas oculares" continuam a chamar atenção
para ela?
Para resolver esse dilema quase não
mencionável e quase sexual, é mais uma vez aplicada a engenharia reversa, dessa
vez muito mais recentemente que os frenéticos primeiros concílios da Igreja que
decidiram quais Evangelhos eram "sinóticos" e quais eram
"apócrifos". É determinado que a própria Maria (de cujo nascimento
não há absolutamente nenhum relato no livro sagrado) teve uma "Imaculada
Conceição" anterior que a deixou essencialmente pura. E é determinado ainda
que, como a punição pelo pecado é morte e ela não podia ter pecado, não poderia
ter morrido, daí o dogma da "Assunção", que estabelece que o ar
rarefeito foi o meio pelo qual ela foi aos céus evitando o túmulo.
É
interessante notar as datas desses éditos maravilhosamente engenhosos. A
doutrina da Imaculada Conceição foi anunciada ou descoberta por Roma em 1852, e
o dogma da Assunção, em 1951. Dizer que algo "feito pelo homem" nem
sempre é dizer que é estúpido. Essas heroicas tentativas de resgate merecem
crédito, mesmo quando vemos o navio furado original afundar sem deixar
vestígios. Mas, por mais inspirada que seja a resolução da Igreja, é um insulto
à divindade alegar que tal inspiração foi de alguma forma divina.
Assim como o roteiro do Velho
Testamento está repleto de sonhos e astrologia (o Sol se detendo de modo que
Josué pudesse concluir seu massacre em um local que nunca foi localizado), a
Bíblia também está cheia de previsões das estrelas (especialmente aquela sobre
Belém), médico-feiticeiros e bruxos. Muitos dos ditos e das proezas de Jesus
são inócuos, principalmente as "beatitudes" que exprimem pensamento
positivo irreal sobre os humildes e os pacifistas. Mas muitos são incompreensíveis e demonstram uma crença na
magia, vários são absurdos e demonstram uma abordagem primitiva da agricultura
(isso se estende a todas as menções a arar e cultivar e todas as alusões a
mostarda e figueiras), e muitos são quase absolutamente imorais.
A analogia de
humanos com lírios, por exemplo, sugere juntamente com muitas outras injunções
— que coisas como cultivo, inovação, vida familiar e assim por diante são
absoluta perda de tempo. ("Não pense no dia seguinte.") Por isso alguns
dos Evangelhos, canônicos e apócrifos, se referem a pessoas (inclusive membros
de sua família) dizendo na época que achavam que Jesus devia ser louco.
Também
houve aqueles que perceberam que ele frequentemente era um judeu sectário
bastante rígido. Em Mateus 15:21-28 lemos sobre seu desprezo por uma mulher
cananeia que implorou por sua ajuda em um exorcismo e recebeu a resposta brusca
de que ele não gastaria sua energia em um não judeu. (Seus discípulos, e a
insistência da mulher acabaram convencendo-o a aceitar e expulsar o
não-demônio.) Em minha opinião, uma história idiossincrática como essa é outra
razão oblíqua para pensar que tal personalidade possa ter vivido.
Havia muitos profetas perturbados
vagando pela Palestina na época, mas esse alegadamente acreditava, pelo menos
parte do tempo, ser Deus ou filho de Deus. E isso fez toda a diferença. Suponha
apenas duas coisas: que ele acreditava nisso e que também prometeu a seus
seguidores revelar seu reino antes que eles chegassem ao fim de suas próprias
vidas, todas menos uma ou duas de suas observações proverbiais fazem algum
sentido. Esse ponto nunca foi destacado com maior franqueza que por C. S. Lewis
(que recentemente ressurgiu como o mais popular apologista cristão) em seu
Cristianismo puro e simples. Ele fala sobre a alegação de Jesus de pegar todos
os pecados para si:
Assim,
a não ser que quem fala seja Deus, isso realmente é tão despropositado que se
torna cômico. Todos podemos compreender como um homem perdoa ofensas a si
mesmo. Você pisa nos meus dedos e eu o perdoo, você rouba meu dinheiro e eu o
perdoo. Mas o que devemos fazer com um homem, ele mesmo não roubado e não
pisado, que anuncia que o perdoa por pisar nos dedos de outro homem ou roubar o
dinheiro de outro homem? Estultice mular é a descrição mais gentil que
poderíamos dar para seu comportamento. Mas foi isso o que Jesus fez. Ele disse
às pessoas que seus pecados estavam perdoados e nunca esperou para consultar
todas as outras pessoas que realmente tinham sido feridas por aqueles pecados.
Ele se comportou, sem hesitação, como se Ele fosse a principal parte afetada, a
principal pessoa ofendida em todas as ofensas. Isso só faz sentido se ele
realmente fosse o Deus cujas leis são violadas e cujo amor é afetado a cada
pecado. Na boca de qualquer um que não seja Deus, essas palavras significariam
o que eu só posso ver como uma tolice e uma presunção não igualadas por
qualquer outro personagem da história.
Deve-se notar que Lewis supõe, sem
qualquer prova, que Jesus realmente era "personagem da história", mas
vamos deixar isso de lado. Ele merece algum crédito por aceitar a lógica e a moralidade
do que afirmou. Para aqueles que argumentam que Jesus podia ter sido um
professor de moral sem ser divino (o teísta Thomas Jefferson alegou de passagem
ser um deles), Lewis tinha essa resposta penetrante:
Essa
é uma coisa que não podemos dizer. Um homem que fosse apenas um homem e
dissesse o tipo de coisas que Jesus disse não seria um grande professor de
moral. Ele seria ou um lunático — do nível do homem que diz ser um ovo
escaldado — ou o Diabo do Inferno. Você precisa fazer sua escolha. Ou esse
homem era, e é, o Filho de Deus, ou um louco ou coisa pior. Você pode calá-Lo
por ser louco, pode cuspir Nele e matá-Lo por ser um demônio ou pode se jogar a
Seus pés e chamá-lo de Senhor Deus. Mas não venha com qualquer absurdo
paternalista sobre ser ele um grande professor
humano. Ele não nos deixou essa possibilidade. Ele não queria.
Eu não estou escolhendo um
espantalho: Lewis é o principal veículo de propaganda escolhido para o
cristianismo nos dias de hoje. E nem estou aceitando suas categorias
sobrenaturais muito selvagens, como diabo e demônio. Ainda menos aceito seu
raciocínio, que é patético como descrição precisa e que considera suas duas falsas
alternativas como sendo antíteses excludentes e depois as usa para conceber um non
sequitur grosseiro. ("A mim parece óbvio que Ele não era nem lunático nem
um espírito mau: consequentemente, por mais estranho, aterrorizante ou
improvável que possa parecer, tenho de aceitar a ideia de que Ele era e é
Deus.") Porém, eu dou a ele o crédito da honestidade e de alguma coragem.
Ou os Evangelhos são de certa forma essencialmente verdade, ou toda a coisa é
fundamentalmente uma fraude e talvez uma fraude moral. Bem, pode ser afirmado
com certeza que os Evangelhos quase certamente não são verdade literal. Isso
significa que muitos dos "ditos" e ensinamentos de Jesus são ouvir
dizer em cima de ouvir dizer, o que ajuda a explicar sua natureza truncada e
contraditória.
O mais deslumbrante deles, pelo menos retrospectivamente e
certamente do ponto de vista dos crentes, diz respeito à iminência de seu
segundo advento e sua completa indiferença com a fundação de qualquer igreja
temporal. A logia ou as falas registradas são repetidamente citadas — por bispos
da Igreja primitiva que queriam ter estado presentes mas não estiveram — como
comentários de terceira mão ansiosamente pedidos. Vou dar um exemplo comum.
Muitos anos após C. S. Lewis ter ido receber sua recompensa, um jovem muito
sério chamado Bart Ehrman começou a estudar suas próprias suposições fundamentalistas.
Ele tinha cursado as duas mais destacadas academias cristãs fundamentalistas
dos Estados Unidos e era considerado pelos fiéis como sendo seu defensor.
Fluente em grego e hebraico (hoje é titular de uma cátedra em estudos da religião),
ele no final não conseguiu fazer sua fé conviver com seu conhecimento Ficou
chocado ao descobrir que algumas das histórias mais conhecidas de Jesus foram
inscritas no cânone muito depois do fato, e que isso era verdade para aquela que
é talvez a mais conhecida de todas.
É a festejada história sobre a
mulher apanhada em adultério. Quem não ouviu falar ou leu sobre como os
fariseus judeus, com experiência em casuísmo, arrastaram a pobre mulher até
Jesus e quiseram saber se ele concordava com a punição mosaica de apedrejá-la
até a morte? Se ele não concordasse, violaria a lei. Se concordasse,
transformaria em absurdo sua própria pregação. É fácil imaginar o pouco cuidado
com que eles se lançaram sobre a mulher. E a resposta serena (após escrever no
chão) — "Aquele dentre vocês que não tiver pecado, atire a primeira pedra"
— penetrou em nossa literatura e em nossa consciência.
Esse episódio é até mesmo celebrado
em celulóide. Faz uma aparição em flashback na caricatura de Mel Gibson e é um
momento adorável do Dr. Jivago de David Lean, em que Lara procura o padre em
seu pior momento e ouve a pergunta sobre o que Jesus disse à mulher caída.
"Vá e não volte a pecar" responde ela. "E ela o fez,
criança?", pergunta o padre duramente. "Não sei, padre." “Ninguém sabe", retruca o padre, de
nenhuma valia nas circunstâncias.
De fato, ninguém sabe. Muito antes
de ler Ehrman, eu tinha minhas próprias perguntas. Se o Novo Testamento
supostamente justifica Moisés, por que as terríveis leis do Pentateuco deveriam
ser abaladas? Olho por olho, dente por dente e a morte de bruxas podem parecer
brutais e estúpidas, mas se apenas os não-pecadores tiverem o direito de punir,
como então uma sociedade imperfeita poderá determinar como processar
criminosos? Todos devemos ser hipócritas. E que autoridade tinha Jesus para
"perdoar"? Presumivelmente, pelo menos uma esposa ou marido em algum
ponto da cidade deve ter se sentido enganado e ultrajado. O cristianismo é, então,
completa permissividade sexual? Caso seja assim, ele tem sido seriamente mal compreendido
desde então. E o que estava sendo escrito no chão? Mais uma vez, ninguém sabe,
Ademais, a história diz que após os fariseus e a multidão terem dispersado
(supostamente por constrangimento) não restou ninguém, a não ser Jesus e a
mulher. Nesse caso, quem é 0 narrador daquilo que ele disse a ela? Por tudo
isso, eu a considero uma história muito boa O professor Ehrman vai além. Ele
fez perguntas mais óbvias. Se a mulher foi "flagrada em adultério", o
que significa em flagrante delito, onde está o parceiro do sexo masculino? A
lei mosaica, esboçada em Levítico, deixa claro que ambos devem ser apedrejados.
Eu de repente me dei conta de que o grande encanto da história é o da trêmula
garota solitária, apupada e arrastada por uma malta de fanáticos sedentos de
sexo, finalmente encontrando um rosto amigo.
Quanto à escrita na poeira, Ehrman
menciona uma antiga tradição segundo a qual Jesus estava rabiscando as
transgressões dos outros presentes, assim levando a rubores, desconforto e
finalmente uma partida apressada. Eu descobri que adoro a ideia, mesmo que isso
signifique um grau de curiosidade mundana, lascívia (e presciência) terrena da
parte dele que apresenta suas próprias dificuldades.
Amarrando tudo, há o fato chocante
de que, como reconhece Ehrman:
A
história não é encontrada em nossos melhores e mais antigos manuscritos do
Evangelho de João; seu estilo é muito diferente do que encontramos no restante
de João (incluindo as histórias imediatamente anterior e posterior) e inclui um
grande número de palavras e frases que fora isso são estranhas ao Evangelho. A
conclusão é inevitável: essa passagem originalmente não era parte do Evangelho.
Eu mais uma vez escolhi minha fonte
com base no critério de "provas contra o interesse": em outras
palavras, de alguém cuja formação original e jornada intelectual não eram de
modo algum voltadas para desafiar a palavra divina. A defesa da consistência,
da autenticidade ou da "inspiração" bíblica tem problemas há algum
tempo, e as falhas e os remendos se tornam cada vez mais óbvios com melhores
pesquisas, de modo que nenhuma "revelação" virá daquele campo. Assim,
portanto, deixemos os defensores e partidários da religião confiarem apenas na
fé, e que eles sejam corajosos o bastante para admitir que é isso o que estão
fazendo.