domingo, 5 de novembro de 2017

HÁ VERDADE NO NOVO TESTAMENTO?


Christopher Hitchens
Se você pegar qualquer dos quatro Evangelhos e o ler ao acaso, não irá demorar a perceber que esse ou aquele ato ou dito atribuído a Jesus é assim para que uma antiga profecia se realize.
Falando da chegada de Jesus a Jerusalém, em lombo de burro, Mateus diz em seu capítulo 21, versículo 4: "Isso aconteceu para se cumprir o que foi dito pelo profeta." A referência provavelmente é a Zacarias 9:9, em que é dito que, quando o Messias chegar, estará em lombo de um jumento. Os judeus ainda estão esperando essa chegada, e os cristãos alegam que ela já ocorreu!
Se parece estranho que uma ação deva deliberadamente ocorrer a fim de que uma previsão se realize, isso é porque é estranho. E é necessariamente estranho porque o "Novo" também é obra de carpintaria ruim, encaixado muito depois dos supostos acontecimentos e cheio de tentativas improvisadas de fazer as coisas parecerem certas. Por uma questão de concisão, eu devo me render a um escritor melhor que eu e citar o que H. L Mencken diz de forma irrefutável em seu Treatise on the Gods:
O fato simples é que o Novo Testamento, como o conhecemos, é uma acumulação atabalhoada de documentos mais ou menos divergentes, alguns deles provavelmente de origem respeitável, mas outros claramente apócrifos, e a maioria deles, tanto os bons quanto os ruins, mostram sinais inequívocos de terem sido adulterados.
O FILME “A PAIXÃO DE CRISTO”
Em 2004 foi produzido um filme melodramático sobre a morte de Jesus por um fascista e canastrão australiano chamado Mel Gibson. O sr. Gibson é membro de uma seita católica excêntrica e cismática composta basicamente por ele e seu pai ainda mais marginal e afirmou que é uma pena que sua própria esposa querida vá para o inferno porque não aceita os sacramentos certos. Ele serenamente define esse destino horrendo como "uma afirmação da cátedra". A doutrina de sua própria seita é explicitamente antissemita e o filme não se cansa de atribuir aos judeus a culpa pela crucificação. Apesar dessa intolerância óbvia, que produziu críticas de cristãos mais cautelosos, “A Paixão de Cristo” foi utilizado de forma oportunista por muitas igrejas "hegemônicas" como uma ferramenta de recrutamento. Em um dos eventos publicitários ecumênicos que patrocinou, o sr. Gibson defendeu sua mixórdia fílmica — que é também um exercício de homoerotismo sadomasoquista estrelado por um ator principal sem qualquer talento, aparentemente nascido na Islândia ou em Minnesota — como sendo baseada nos relatos de "testemunhas oculares".
Na época eu considerei extraordinário que uma produção multimilionária pudesse ser abertamente baseada em uma alegação tão claramente fraudulenta, mas ninguém pareceu se incomodar. Mesmo as autoridades judaicas em sua maioria mantiveram o silêncio. Mas depois alguns deles quiseram abafar essa velha discussão, que por séculos levou a pogrons pascais contra os "judeus assassinos de Cristo". Apenas duas décadas depois da Segunda Guerra Mundial o Vaticano formalmente retirou a acusação de teocídio contra o povo judeu como um todo. E a verdade é que os judeus costumavam pedir o crédito pela crucificação.
OS EVANGELHOS
Os quatro evangelhos presentes hoje no Novo Testamento não são forma alguma de registro histórico. Seus muitos autores — nenhum dos quais publicou qualquer coisa até muitas décadas após a crucificação — não conseguem concordar em nada importante.
Mateus e Lucas não chegam a um acordo sobre o Nascimento Virginal ou a genealogia de Jesus. Eles se contradizem completamente na "Fuga para o Egito", com Mateus dizendo que José foi "avisado em um sonho" a fugir imediatamente e Lucas dizendo que todos os três permaneceram em Belém até a "purificação de Maria de acordo com as leis de Moisés", o que demoraria quarenta dias, e então retornaram a Nazaré através de Jerusalém. (Apenas de passagem, se a fuga para o Egito de modo a proteger uma criança da campanha infanticida de Herodes tiver algum fundo de verdade, então Hollywood e muitos, muitos iconógrafos cristãos têm nos enganado. Teria sido muito difícil levar um bebê louro e de olhos azuis para o delta do Nilo sem atrair atenção.
O Evangelho de Lucas afirma que o nascimento milagroso ocorreu em um ano em que o imperador César Augusto ordenou um censo com objetivos fiscais, e que isso aconteceu na época em que Herodes reinava na Judeia e Quirino era governador da Síria. Isso é o mais perto de triangulação de datas históricas a que qualquer autor bíblico já chegou. Mas Herodes morreu quatro anos "a.C.", e durante seu reinado o governador da Síria não era Quirino. Nenhum historiador romano faz menção a qualquer censo de Augusto, mas o cronista judeu Josefo menciona um que ocorreu — sem a exigência custosa de que as pessoas retornassem a seu local de nascimento e seis anos após o suposto nascimento de Jesus. Isso, evidentemente, é uma reconstrução oral truncada realizada em um momento consideravelmente posterior ao "fato".
Os escribas não conseguem sequer concordar sobre os elementos míticos: eles discordam abertamente sobre o Sermão da Montanha, a unção de Jesus, a traição de Judas e a obsedante "negação" de Pedro. Ainda mais chocante, eles não conseguem produzir um mesmo relato da Crucificação ou da Ressurreição. Assim, a única  interpretação que temos de descartar é simplesmente a de que todas as quatro têm mandato divino. O livro no qual todos os quatro podem ter se baseado, especulativamente conhecido pelos estudiosos como "Q", se perdeu para sempre, o que parece algo claramente descuidado da parte do deus que alegadamente o "inspirou".
Há sessenta anos, em Nag Hammadi, no Egito, foi descoberto um tesouro de "Evangelhos" esquecidos perto de um sítio cristão copta muito antigo. Os pergaminhos eram do mesmo período e da mesma origem de muitos dos posteriores Evangelhos canônicos e "autorizados" e havia muito tinham recebido o nome genérico de "gnósticos". Esse foi o título dado a eles por um certo Irineu, um dos primeiros pais da Igreja, os baniu como sendo heréticos. Entre eles estão os "Evangelhos" ou as narrativas de personagens secundários, mas significativos, do "Novo" Testamento aceito, como o "Tomé Dídimo" e Maria Madalena.
Há também o Evangelho de Judas, que havia séculos sabia-se que existia, mas que agora foi revelado e publicado pela National Geographic Society na primavera de 2006. O livro é basicamente baboseira espiritualista, como era de esperar, mas oferece uma versão dos "acontecimentos" que é um pouco mais crível do que o relato oficial. Isso torna fácil entender por que ele foi tão categoricamente banido e atacado: o cristianismo ortodoxo não passa de uma realização e conclusão daquela história cruel. Judas participa da última refeição da Páscoa, como de hábito, mas se afasta do roteiro habitual. Quando Jesus parece lamentar que seus outros discípulos saibam tão pouco sobre o que está em jogo, seu seguidor patife diz claramente que acredita saber qual é a dificuldade. "Eu sei quem você é e de onde veio", diz ele ao líder. "Você vem do reino imortal de Barbelo". Esse "Barbelo" não é um deus, mas um destino celestial, uma terra natal além das estrelas. Jesus vem desse reino celeste, mas ele não é filho do Deus mosaico. Em vez disso, ele éum avatar de Set, o terceiro e menos conhecido filho de Adão. Ele é aquele que mostrará aos sétios o caminho de casa.
Reconhecendo que Judas é pelo menos um pequeno membro desse culto, Jesus o chama de lado e dá a ele a missão de ajudá-lo a abandonar sua forma carnal e assim retornar ao céu. Ele também promete mostrar as estrelas que permitirão a Judas segui-lo.
Por mais que isso seja uma ficção científica enlouquecida, faz infinitamente mais sentido do que a maldição eterna lançada sobre Judas por fazer o que era necessário nessa crônica, afora isso, pedantemente produzida de uma morte anunciada. Também faz infinitamente mais sentido do que culpar os judeus por toda a eternidade. Durante muito tempo houve um debate acalorado sobre quais dos "Evangelhos" deveriam ser considerados divinamente inspirados. Alguns defendiam esses, e alguns, outros, e muitas vidas se perderam de forma horrível em função disso. Ninguém se deu o trabalho de dizer que todos foram escritos pelo homem muito depois do suposto drama ter terminado, e o "Apocalipse" de São João parece ter sido contrabandeado para o cânone por causa do nome (bastante comum) de seu autor. Mas como disse Jorge Luis Borges, se os gnósticos alexandrinos tivessem vencido, algum Dante posterior teria oferecido a nós um hipnoticamente belo retrato escrito das maravilhas de "Barbelo". 
Eu poderia escolher chamar esse conceito de "o folhelho Borges": a verve e a imaginação necessárias para visualizar um corte de ramos e arbustos evolucionários, com a possibilidade extraordinária mas real de que um diferente ramo ou linha (ou música, ou poema) tivesse predominado no labirinto. Grandiosos tetos, campanários e hinos, poderia ele ter acrescentado, o teriam consagrado, e torturadores habilidosos teriam trabalhado durante dias naqueles que duvidassem da verdade de Barbelo: começando com as unhas dos dedos e abrindo caminho engenhosamente até os testículos, a vagina, os olhos e as vísceras. A descrença em Barbelo iria, de forma correspondente, ter sido um sinal inequívoco de que a pessoa não tinha qualquer moral. Este é o melhor argumento que conheço para a altamente questionável existência de Jesus. Seus discípulos sobreviventes analfabetos não nos deixaram qualquer registro, e de qualquer forma nunca poderiam ter sido "cristãos", já que nunca iriam ler esses livros posteriores em que os cristãos precisam afirmar a crença, e de qualquer forma não teriam qualquer ideia de que alguém iria um dia fundar uma igreja com base nos pronunciamentos de seu mestre. Também não há uma só palavra em qualquer dos Evangelhos posteriormente montados que indique que Jesus queria ser o fundador de uma Igreja.
Apesar de tudo isso, as profecias do Velho Testamento indicam que o Messias nasceria na cidade de Davi, que de fato parece ter sido Belém. Porém, os pais de Jesus aparentemente eram de Nazaré e, se tiveram um filho, ele mais provavelmente nasceu naquela cidade. Assim, um enorme volume de falsificações — relativas a Augusto, Herodes e Quirino — está envolvido na criação da história do censo e na transferência da cena da natividade para Belém (onde, por falar nisso, nunca é mencionado qualquer "estábulo"). Mas por que tudo isso, quando uma falsificação muito mais simples seria fazê-lo nascer diretamente em Belém, sem qualquer obrigação desnecessária? As próprias tentativas de consertar e ajeitar a história poder ser a prova contrária de que alguém de posterior importância de fato nasceu, de modo que retrospectivamente, e para cumprir as profecias, as provas teriam de ser um pouco trabalhadas. Mas então, mesmo minha tentativa de ser justo e aberto neste caso é prejudicada pelo Evangelho de João, que parece sugerir que Jesus nem nasceu em Belém nem era descendente do rei Davi. Se os apóstolos não sabem ou não conseguem entrar em acordo, qual o valor disso para minha análise?
Seja como for, se a linhagem real é algo do que se orgulhar e sobre o que profetizar, por que a insistência em outros pontos em um nascimento aparentemente humilde?
Quase todas as religiões, do budismo ao islamismo, apresentam ou um profeta humilde ou um príncipe que se identifica com os pobres, mas o que é isso a não ser populismo? Não surpreende que as religiões escolham se dirigir primeiramente a maioria de pobres, sofridos e ignorantes.
As contradições e ignorâncias do Novo Testamento encheram muitos livros de estudiosos importantes, e nunca foram explicadas por qualquer autoridade cristã a não ser em termos medíocres de "metáfora" e "um Cristo de fé". Essa mediocridade deriva do fato de que até recentemente os cristãos podiam simplesmente queimar ou silenciar qualquer um que fizesse perguntas inconvenientes. Os Evangelhos, porém, são úteis para mais uma vez demonstrar o mesmo ponto que os capítulos anteriores, o de que a religião é criação do homem. A lei é dada por Moisés, mas a graça e a verdade vêm de Jesus Cristo, diz São João. 
São Mateus busca o mesmo efeito, baseando tudo em um versículo ou dois do profeta Isaías, que disse ao rei Acaz, quase oito séculos antes da data ainda não definida do nascimento de Jesus que "o senhor dará a você um sinal: uma virgem irá conceber e dar à luz um filho". Isso encorajou Acaz a acreditar que conseguiria a vitória sobre seus inimigos (o que no final, mesmo se você considerar esta história uma narrativa histórica, ele não conseguiu). O quadro é alterado ainda mais quando sabemos que a palavra traduzida como virgem, especificamente “almah”, significa apenas "uma mulher jovem". Seja como for, a partenogênese não é possível em mamíferos humanos, e, mesmo se essa lei fosse violada apenas em um caso, isso não provaria que o bebê resultante teria qualquer poder divino. 
Assim, e como de hábito, a religião levanta suspeitas ao tentar provar demais. Por analogia inversa, o Sermão da Montanha replica Moisés no monte Sinai, e os discípulos não descritos fazem o papel dos judeus que seguiram Moisés para todo canto, fazendo com que dessa forma a profecia seja cumprida para qualquer um que não perceba ou não se importe com o fato de a história estar sendo produzida por "engenharia reversa", como podemos dizer hoje.
Em um pequeno trecho de apenas um Evangelho (aproveitado pelo agressor de judeus Mel Gibson), os rabinos são colocados a repetir Deus no Sinai e realmente pedir que a culpa pelo sangue de Jesus seja transmitida a todas as gerações subsequentes: um pedido que, mesmo que devesse ser feito, estava bem além do seu direito e do seu poder.
Mas o caso da Imaculada Conceição é a prova mais fácil de que humanos estiveram envolvidos na produção de uma lenda. Jesus faz grandes alegações sobre seu pai celestial, mas nunca menciona que sua mãe é ou era virgem, e é repetidamente rude e grosseiro com ela quando aparece, como fariam mães judaicas, para perguntar ou descobrir como ele estava indo. Ela própria parece não ter lembrança da visita do arcanjo Gabriel ou do enxame de anjos, todos dizendo que ela era a mãe de Deus. Em todos os relatos, tudo o que seu filho faz se revela a ela como uma completa surpresa, quando não um choque. O que poderia ele estar fazendo conversando com os rabinos no templo? 
O que ele está dizendo quando lembra a ela de forma lacônica que está no negócio do seu pai? Seria de esperar uma forte lembrança materna, especialmente em alguém que passou pela experiência,única entre todas as mulheres, de se descobrir grávida sem ter passado pelas  notórias condições para esse estado de graça. Lucas chega mesmo a cometer um deslize revelador em dado momento ao falar sobre os "pais de Jesus" ao se referir unicamente a José e Maria quando eles visitam o templo para sua purificação e são saudados pelo velho Simeão, que pronuncia seu maravilhoso Nunc dimittis, que (outro de meus velhos coros prediletos) também pode ser um pretendido ecoar de Moisés vislumbrando a Terra Prometida apenas em idade extremamente avançada.
Há então a questão extraordinária da grande prole de Maria. Mateus nos informa que havia quatro irmãos de Jesus e também algumas irmãs. No Evangelho de Tiago, que não é canônico mas também não é descartado, temos o relato de um irmão de Jesus de mesmo nome, que evidentemente era muito atuante nos círculos religiosos na mesma época. Vamos aceitar que Maria pudesse te  "concebido" como virgo intacta e dado à luz um bebê, o que certamente a teria deixado menos intacta nesse sentido. Mas como ela continuou a produzir filhos com o homem José, que só existe no discurso registrado e assim criou uma família sagrada tão grande que as "testemunhas oculares" continuam a chamar atenção para ela?
Para resolver esse dilema quase não mencionável e quase sexual, é mais uma vez aplicada a engenharia reversa, dessa vez muito mais recentemente que os frenéticos primeiros concílios da Igreja que decidiram quais Evangelhos eram "sinóticos" e quais eram "apócrifos". É determinado que a própria Maria (de cujo nascimento não há absolutamente nenhum relato no livro sagrado) teve uma "Imaculada Conceição" anterior que a deixou essencialmente pura. E é determinado ainda que, como a punição pelo pecado é morte e ela não podia ter pecado, não poderia ter morrido, daí o dogma da "Assunção", que estabelece que o ar rarefeito foi o meio pelo qual ela foi aos céus evitando o túmulo. 
É interessante notar as datas desses éditos maravilhosamente engenhosos. A doutrina da Imaculada Conceição foi anunciada ou descoberta por Roma em 1852, e o dogma da Assunção, em 1951. Dizer que algo "feito pelo homem" nem sempre é dizer que é estúpido. Essas heroicas tentativas de resgate merecem crédito, mesmo quando vemos o navio furado original afundar sem deixar vestígios. Mas, por mais inspirada que seja a resolução da Igreja, é um insulto à divindade alegar que tal inspiração foi de alguma forma divina.
Assim como o roteiro do Velho Testamento está repleto de sonhos e astrologia (o Sol se detendo de modo que Josué pudesse concluir seu massacre em um local que nunca foi localizado), a Bíblia também está cheia de previsões das estrelas (especialmente aquela sobre Belém), médico-feiticeiros e bruxos. Muitos dos ditos e das proezas de Jesus são inócuos, principalmente as "beatitudes" que exprimem pensamento positivo irreal sobre os humildes e os pacifistas. Mas muitos são  incompreensíveis e demonstram uma crença na magia, vários são absurdos e demonstram uma abordagem primitiva da agricultura (isso se estende a todas as menções a arar e cultivar e todas as alusões a mostarda e figueiras), e muitos são quase absolutamente imorais. 
A analogia de humanos com lírios, por exemplo, sugere juntamente com muitas outras injunções — que coisas como cultivo, inovação, vida familiar e assim por diante são absoluta perda de tempo. ("Não pense no dia seguinte.") Por isso alguns dos Evangelhos, canônicos e apócrifos, se referem a pessoas (inclusive membros de sua família) dizendo na época que achavam que Jesus devia ser louco. 
Também houve aqueles que perceberam que ele frequentemente era um judeu sectário bastante rígido. Em Mateus 15:21-28 lemos sobre seu desprezo por uma mulher cananeia que implorou por sua ajuda em um exorcismo e recebeu a resposta brusca de que ele não gastaria sua energia em um não judeu. (Seus discípulos, e a insistência da mulher acabaram convencendo-o a aceitar e expulsar o não-demônio.) Em minha opinião, uma história idiossincrática como essa é outra razão oblíqua para pensar que tal personalidade possa ter vivido.
Havia muitos profetas perturbados vagando pela Palestina na época, mas esse alegadamente acreditava, pelo menos parte do tempo, ser Deus ou filho de Deus. E isso fez toda a diferença. Suponha apenas duas coisas: que ele acreditava nisso e que também prometeu a seus seguidores revelar seu reino antes que eles chegassem ao fim de suas próprias vidas, todas menos uma ou duas de suas observações proverbiais fazem algum sentido. Esse ponto nunca foi destacado com maior franqueza que por C. S. Lewis (que recentemente ressurgiu como o mais popular apologista cristão) em seu Cristianismo puro e simples. Ele fala sobre a alegação de Jesus de pegar todos os pecados para si:
Assim, a não ser que quem fala seja Deus, isso realmente é tão despropositado que se torna cômico. Todos podemos compreender como um homem perdoa ofensas a si mesmo. Você pisa nos meus dedos e eu o perdoo, você rouba meu dinheiro e eu o perdoo. Mas o que devemos fazer com um homem, ele mesmo não roubado e não pisado, que anuncia que o perdoa por pisar nos dedos de outro homem ou roubar o dinheiro de outro homem? Estultice mular é a descrição mais gentil que poderíamos dar para seu comportamento. Mas foi isso o que Jesus fez. Ele disse às pessoas que seus pecados estavam perdoados e nunca esperou para consultar todas as outras pessoas que realmente tinham sido feridas por aqueles pecados. Ele se comportou, sem hesitação, como se Ele fosse a principal parte afetada, a principal pessoa ofendida em todas as ofensas. Isso só faz sentido se ele realmente fosse o Deus cujas leis são violadas e cujo amor é afetado a cada pecado. Na boca de qualquer um que não seja Deus, essas palavras significariam o que eu só posso ver como uma tolice e uma presunção não igualadas por qualquer outro personagem da história.
Deve-se notar que Lewis supõe, sem qualquer prova, que Jesus realmente era "personagem da história", mas vamos deixar isso de lado. Ele merece algum crédito por aceitar a lógica e a moralidade do que afirmou. Para aqueles que argumentam que Jesus podia ter sido um professor de moral sem ser divino (o teísta Thomas Jefferson alegou de passagem ser um deles), Lewis tinha essa resposta penetrante:
Essa é uma coisa que não podemos dizer. Um homem que fosse apenas um homem e dissesse o tipo de coisas que Jesus disse não seria um grande professor de moral. Ele seria ou um lunático — do nível do homem que diz ser um ovo escaldado — ou o Diabo do Inferno. Você precisa fazer sua escolha. Ou esse homem era, e é, o Filho de Deus, ou um louco ou coisa pior. Você pode calá-Lo por ser louco, pode cuspir Nele e matá-Lo por ser um demônio ou pode se jogar a Seus pés e chamá-lo de Senhor Deus. Mas não venha com qualquer absurdo paternalista sobre ser ele um grande  professor humano. Ele não nos deixou essa possibilidade. Ele não queria.
Eu não estou escolhendo um espantalho: Lewis é o principal veículo de propaganda escolhido para o cristianismo nos dias de hoje. E nem estou aceitando suas categorias sobrenaturais muito selvagens, como diabo e demônio. Ainda menos aceito seu raciocínio, que é patético como descrição precisa e que considera suas duas falsas alternativas como sendo antíteses excludentes e depois as usa para conceber um non sequitur grosseiro. ("A mim parece óbvio que Ele não era nem lunático nem um espírito mau: consequentemente, por mais estranho, aterrorizante ou improvável que possa parecer, tenho de aceitar a ideia de que Ele era e é Deus.") Porém, eu dou a ele o crédito da honestidade e de alguma coragem. Ou os Evangelhos são de certa forma essencialmente verdade, ou toda a coisa é fundamentalmente uma fraude e talvez uma fraude moral. Bem, pode ser afirmado com certeza que os Evangelhos quase certamente não são verdade literal. Isso significa que muitos dos "ditos" e ensinamentos de Jesus são ouvir dizer em cima de ouvir dizer, o que ajuda a explicar sua natureza truncada e contraditória. 
O mais deslumbrante deles, pelo menos retrospectivamente e certamente do ponto de vista dos crentes, diz respeito à iminência de seu segundo advento e sua completa indiferença com a fundação de qualquer igreja temporal. A logia ou as falas registradas são repetidamente citadas — por bispos da Igreja primitiva que queriam ter estado presentes mas não estiveram — como comentários de terceira mão ansiosamente pedidos. Vou dar um exemplo comum. Muitos anos após C. S. Lewis ter ido receber sua recompensa, um jovem muito sério chamado Bart Ehrman começou a estudar suas próprias suposições fundamentalistas. Ele tinha cursado as duas mais destacadas academias cristãs fundamentalistas dos Estados Unidos e era considerado pelos fiéis como sendo seu defensor. Fluente em grego e hebraico (hoje é titular de uma cátedra em estudos da religião), ele no final não conseguiu fazer sua fé conviver com seu conhecimento Ficou chocado ao descobrir que algumas das histórias mais conhecidas de Jesus foram inscritas no cânone muito depois do fato, e que isso era verdade para aquela que é talvez a mais conhecida de todas.
É a festejada história sobre a mulher apanhada em adultério. Quem não ouviu falar ou leu sobre como os fariseus judeus, com experiência em casuísmo, arrastaram a pobre mulher até Jesus e quiseram saber se ele concordava com a punição mosaica de apedrejá-la até a morte? Se ele não concordasse, violaria a lei. Se concordasse, transformaria em absurdo sua própria pregação. É fácil imaginar o pouco cuidado com que eles se lançaram sobre a mulher. E a resposta serena (após escrever no chão) — "Aquele dentre vocês que não tiver pecado, atire a primeira pedra" — penetrou em nossa literatura e em nossa consciência.
Esse episódio é até mesmo celebrado em celulóide. Faz uma aparição em flashback na caricatura de Mel Gibson e é um momento adorável do Dr. Jivago de David Lean, em que Lara procura o padre em seu pior momento e ouve a pergunta sobre o que Jesus disse à mulher caída. "Vá e não volte a pecar" responde ela. "E ela o fez, criança?", pergunta o padre duramente. "Não sei, padre."  “Ninguém sabe", retruca o padre, de nenhuma valia nas circunstâncias.
De fato, ninguém sabe. Muito antes de ler Ehrman, eu tinha minhas próprias perguntas. Se o Novo Testamento supostamente justifica Moisés, por que as terríveis leis do Pentateuco deveriam ser abaladas? Olho por olho, dente por dente e a morte de bruxas podem parecer brutais e estúpidas, mas se apenas os não-pecadores tiverem o direito de punir, como então uma sociedade imperfeita poderá determinar como processar criminosos? Todos devemos ser hipócritas. E que autoridade tinha Jesus para "perdoar"? Presumivelmente, pelo menos uma esposa ou marido em algum ponto da cidade deve ter se sentido enganado e ultrajado. O cristianismo é, então, completa permissividade sexual? Caso seja assim, ele tem sido seriamente mal compreendido desde então. E o que estava sendo escrito no chão? Mais uma vez, ninguém sabe, Ademais, a história diz que após os fariseus e a multidão terem dispersado (supostamente por constrangimento) não restou ninguém, a não ser Jesus e a mulher. Nesse caso, quem é 0 narrador daquilo que ele disse a ela? Por tudo isso, eu a considero uma história muito boa O professor Ehrman vai além. Ele fez perguntas mais óbvias. Se a mulher foi "flagrada em adultério", o que significa em flagrante delito, onde está o parceiro do sexo masculino? A lei mosaica, esboçada em Levítico, deixa claro que ambos devem ser apedrejados. Eu de repente me dei conta de que o grande encanto da história é o da trêmula garota solitária, apupada e arrastada por uma malta de fanáticos sedentos de sexo, finalmente encontrando um rosto amigo.
Quanto à escrita na poeira, Ehrman menciona uma antiga tradição segundo a qual Jesus estava rabiscando as transgressões dos outros presentes, assim levando a rubores, desconforto e finalmente uma partida apressada. Eu descobri que adoro a ideia, mesmo que isso signifique um grau de curiosidade mundana, lascívia (e presciência) terrena da parte dele que apresenta suas próprias dificuldades.
Amarrando tudo, há o fato chocante de que, como reconhece Ehrman:
A história não é encontrada em nossos melhores e mais antigos manuscritos do Evangelho de João; seu estilo é muito diferente do que encontramos no restante de João (incluindo as histórias imediatamente anterior e posterior) e inclui um grande número de palavras e frases que fora isso são estranhas ao Evangelho. A conclusão é inevitável: essa passagem originalmente não era parte do Evangelho.

Eu mais uma vez escolhi minha fonte com base no critério de "provas contra o interesse": em outras palavras, de alguém cuja formação original e jornada intelectual não eram de modo algum voltadas para desafiar a palavra divina. A defesa da consistência, da autenticidade ou da "inspiração" bíblica tem problemas há algum tempo, e as falhas e os remendos se tornam cada vez mais óbvios com melhores pesquisas, de modo que nenhuma "revelação" virá daquele campo. Assim, portanto, deixemos os defensores e partidários da religião confiarem apenas na fé, e que eles sejam corajosos o bastante para admitir que é isso o que estão fazendo.