JANE BICHMACHER DE GLASMAN
Publicado em Visão Judaica 67, abril de 2008
A ceia que foi a origem da eucaristia era um seder de Pessach.
A origem da hóstia é o pão ázimo (matzá). A palavra vem do latim hostia (=vítima); significa “vítima oferecida em sacrifício para uma divindade” e “partícula de pão ázimo que se consagra durante a comunhão”. Em hebraico, as palavras correspondentes são Korban e Matzá, respectivamente.
Antigamente na Igreja os fiéis ofereciam o necessário para o culto, sobretudo o pão e o vinho. Desde o século XI, o pão utilizado no altar é preparado à parte pelo clero. Ele tem que ser de farinha, ázimo e com marcas que o distinga do pão comum. No século XI, a Igreja católica ordenou que se utilizasse na Missa somente pão sem levedura[i][1]. Quanto à forma do pão eucarístico, o Papa São Ceferino (séc. III) os chama de "coroas" por causa de sua forma redonda[ii][2].
Em suma: a hóstia é basicamente uma matzá shemurá[iii][3] kasher!
Mas a macabra ironia começa um pouco depois.
Em 1215, no IV Concílio Laterano, foi estabelecido o dogma da transubstanciação, que afirma que o pão e o vinho da comunhão não somente simbolizam, mas milagrosamente se transformam no corpo e no sangue de Cristo. Esta doutrina, associada a outras medidas discriminatórias contra os judeus[iv][4], tornou-se fonte de anti-semitismo cristão. Destacam-se duas calúnias:
1) Profanação da hóstia: Durante muito tempo, circularam acusações de que a hóstia era profanada pelos judeus, que tentavam roubá-la para esfaqueá-la, atormentá-la e queimá-la numa tentativa de “recrucificar” Jesus. Muitas estórias circulavam para ilustrar. Em 1298, a acusação de profanação da hóstia fez com que toda a população judaica de Röttingen fosse queimada, seguindo-se um massacre dos judeus por toda a Alemanha e na Áustria. 100.000 pessoas foram assassinadas e em torno de 140 comunidades judaicas dizimadas. Em Praga, em 1389, um sacerdote carregando uma hóstia foi acidentalmente salpicado de areia por algumas crianças judias que brincavam. Em conseqüência disto, 3.000 judeus foram massacrados.
2) Libelo de Sangue: afirma que judeus matam cristãos para obter sangue para Pessach e outros rituais. Acreditava-se que os judeus precisavam beber sangue cristão a fim de que sua aparência pudesse continuar humana; o sangue cristão também ajudava a eliminar o foetur judaicus, "fedor de judeu", que era transformado em "odor de santidade" possuído pelos cristãos. Outra versão desta acusação era que os judeus seqüestravam bebês cristãos, matavam e moíam seus corpos para fazer matzá para Pessach. Esta calúnia é tão absurda que seria cômica se não tivesse tido conseqüências tão trágicas. Ao povo judeu é proibido beber o sangue de qualquer animal, muito menos sangue e carne humanos. Apesar de sua óbvia falsidade a qualquer pessoa com um mínimo de conhecimento das leis dietéticas judaicas, milhares de judeus foram assassinados por causa desta mentira. E pior: ela continuou até nossos dias... Entre 1880 e 1945, o libelo de sangue espalhou-se largamente no centro da Europa Oriental. O jornal nazista Der Stürmer apresentava regularmente figuras de rabinos chupando o sangue de crianças alemãs. E a calúnia persiste, travestida, principalmente na mídia muçulmana extremista antiisraelense...
O aparecimento de tais doutrinas mostra uma completa ignorância do estilo de vida do povo judeu, bem como uma falta de diálogo e relacionamento cristão-judaico. A própria Igreja Católica só o declarou falso depois da década de 1960.Parece absurdo que tal coisa ainda aconteça nos dias de hoje, mas o anti-semitismo não morre facilmente.
Para concluir, não posso deixar de mencionar um outro lado da história: a dos marranos. Estes heróicos mantenedores secretos de um judaísmo do qual foram despojados por um batismo forçado em terras ibéricas em tempos medievais, ao serem “redescobertos” no século XX, conservavam o Iom Kipur, o Jejum de Ester (na véspera de Purim) e Pessach (Páscoa), por eles chamada a Festa Santa, sua festa mais importante. Em interessante documentário[v][5] mostram como os marranos de Belmonte (hoje uma comunidade guiada por um judaísmo conservador tradicional) assavam as matzot em uma cerimônia especial, com lençóis brancos, estendidos no chão, e as mulheres que se ocupam do afazer, também vestidas de branco.
No passado, costumavam assar as matzot só no terceiro dia de Pessach para enganar a Inquisição, que invadia suas casas na noite do Seder (primeira noite da festa) a fim de procurar a prática da fé judaica. As cantigas que entoam, antigamente eram cantadas em pequenos grupos, em tom baixo, quase sussurradas. No quinto dia da festa, ao raiar do dia, saíam para o rio próximo à cidade, cada um levando um galho de oliveira. A cerimônia no rio era um dos momentos mais importantes da vivência marrana. Eles batiam no rio em lembrança da abertura do Mar Vermelho e atravessavam-no diversas vezes. Os galhos de oliveira eram guardados até o ano seguinte para assar as matzot.
Entre os que comemoravam Pessach escondidos, buscando driblar a Inquisição, e os que abrem as portas de suas casas no Seder, tanto para que entre o que tem fome como para se verifique que não há sangue no ritual nem carne de criancinha cristã, seguimos celebrando a liberdade e esperando por maior tolerância entre os homens de boa vontade. Mais que tolerância – aceitação.
[i][1] Embora desse liberdade para que o rito grego continuasse a consagrar com pão levedado
[ii][2] La Santa Misa:Ediciones Rialp, Madrid, 1975- Autor: Anônimo, pp. 211 - 224s
[iii][3] A que é fabricada com a farinha de trigo com a qual se teve cuidado desde o momento da colheita para que não entre em contacto com água e fermente
[iv][4] Uso de vestuário distintivo: tecido amarelo, chapéu pontudo; proibição da prática de algumas profissões e do casamento com cristãos, bairros especiais, expulsão de alguns países.
[v][5] Ierushalayim she-hayta biSfarad, da TV israelense, em 1992.
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JANE BICHMACHER DE GLASMAN - Doutora em Língua Hebraica, Literaturas e Cultura Judaica - USP, professora adjunta, fundadora e ex-diretora do Programa de Estudos Judaicos –UERJ, escritora.