terça-feira, 30 de novembro de 2010

OS JUDEUS NÃO MATARAM JESUS CRISTO


Rosa Cass

Há quase dois mil anos, os judeus têm sido vítimas de perseguições, discriminação, martírio e assassinato coletivo, acusados sem prova do crime de ter matado Jesus, um rabino revolucionário que se pretendia Filho de Deus, fazia milagres, curava pessoas e pregava aos seus compatriotas pobres, acenando-lhes com o Reino dos Céus caso aceitassem os novos preceitos. Esses conceitos se espalharam pelo mundo através dos discípulos de Jesus, dos pregadores e dos quatro evangelistas – Mateus, Marcos, Lucas e João – que deixaram cada um o relato escrito sobre a caminhada do Cristo e de sua Paixão, até sua morte na cruz, em Jerusalém, ainda que só um deles tenha vivido diretamente a experiência como apóstolo, junto ao auto-proclamado Messias.

Depois de séculos de sofrimento, impedidos de exercer profissões e de possuir terras, ainda na idade média, suportando pogroms na Rússia e na Polônia até o início do século passado e sobrevivendo a um assassinato coletivo de cerca de 6 milhões de judeus na Alemanha de Hitler, só faltava agora um filme, “A Paixão de Cristo”, (produzido e dirigido pelo conhecido ator Mel Gibson), tentar reviver o drama vivido por Jesus, sob o Império Romano, dando cores à história com fortes tintas de crueldade para induzir o público à acreditar na pretensa responsabilidade dos judeus na crucificação do dito filho de D’s.

Isto no século XXI, apesar de tantas dissidências religiosas e ignorando, cabalmente, o fato do Papa João Paulo II ter pedido desculpas públicas ao povo judeu pelos anos de violência e tortura (Inquisição e outros crimes) passados em nome desse secular equívoco. É verdade que hoje nas aulas de catecismo a criança não aprende, como aconteceu em outros tempos com um filho de judeu não religioso, casado com uma católica, que deveria ter “horror aos judeus porque eles tinham matado Jesus”.

“O que ensinamos às nossas crianças é baseado no amor e não no ódio. Que Cristo veio ao mundo para trazer paz e união e nos salvar dos nossos pecados” diz a jornalista e diretora dos Estúdios Moinhos, Fátima Fonseca, 46 anos, ex-catequista de uma igreja no Centro do Rio de Janeiro, dois filhos, cuja menina de oito anos já está nas aulas de catecismo.

Fátima ainda não viu o filme de Mel Gibson, pretende assisti-lo em circuito comercial, mas entende que, em nenhuma parte da doutrina cristã – e ela se classifica como estudiosa do assunto – está mencionada a culpa dos judeus pela morte de Cristo.

Nós, apenas, registramos sua opinião.

O Evangelho segundo Mel Gibson

Todos com quem Menorah conversou e que assistiram “Paixão de Cristo” concordam que o filme é de extrema violência, muito forte e que foca principalmente a brutalidade com que Jesus foi tratado desde a flagelação até morrer na cruz. Na opinião de Glória Severiano Ribeiro, católica tradicional ligada ao chamado Grupo do Terço, responsável pela exibição especial do filme para um grupo de católicos e de “Legionários de Cristo”, não foram os judeus que mataram Cristo – “Jesus se deu por nós, ressuscitou e passou por tudo para nos salvar. Escolhi exibir o filme Paixão de Cristo porque estamos na Quaresma, época importante para meditarmos sobre a vida e sobre o sacrifício de Jesus.”

A seu ver, o filme de Gibson é muito forte e cruel e não deve ser assistido por crianças, porém não é anti-semita, “pois tudo que está nele, está na Bíblia”. Mas o importante nele é a mensagem: de que não se deve buscar culpados e, ao contrário, reconhecer que a morte de Jesus aconteceu para nos salvar dos nossos pecados. O filme de Gibson não é anti-semita, ele é fiel à Bíblia (referência ao Testamento cristão).

Segundo a historiadora Anita Novinsky, professora de “História da Inquisição e História dos Cristãos Novos” na Universidade de São Paulo e presidente do Laboratório de Intolerância Religiosa da mesma universidade, os judeus não mataram Jesus e o filme de Mel Gibson é anti-semita, sim, mostrando sangue, muito sangue, para quê?

Recém chegada da Europa, onde criou filiais do instituto que preside em Paris, Lisboa e Madri, Anita Novinsky disse que viu apenas partes do filme e não todo ele e nem pretende assisti-lo. De São Paulo, ela falou à Menorah: “É um filme de um autor católico fanático, negacionista, filho de um negacionista que nega o Holocausto, e que gastou, cerca de dois milhões de dólares para construir uma capela em sua casa, onde era rezada missa diariamente durante o tempo da filmagem. E que, segundo se falou, era assistida obrigatoriamente pelos integrantes do elenco.”

A historiadora Novinsky vai mais adiante em suas conclusões: “Com essa produção, que está causando polêmica no mundo ocidental, além de ganhar muito dinheiro, Mel se tornou o maior propagandista da igreja católica na atualidade e pelo impacto do que foi mostrado conseguiu trazer de novo para o seio da igreja, um grande número de fiéis que se tinha transferido para outras religiões e seitas. Ou seja, é um filme propagandístico, brutal, que levanta as pessoas mas não transmite a grande mensagem.”

A historiadora não faz a ilação, mas somando os fatos sobre o filme, tem-se a impressão que Mel Gibson, com sua interpretação linear da doutrina cristã, pode ter assumido o papel de quinto evangelista.

Ele usou o cinema, um dos mais diretos meios de comunicação de massa, e fez os atores se comunicarem em aramaico (a língua falada pelo povo judeu da época) e latim, para estabelecer no espectador a sensação de pertencimento, pela reprodução de condições da época. Ou, nessa linha, Gibson auto-referiu-se como defensor da fé católica, numa nova cruzada contra os infiéis que não seguem o estrito e estreito caminho da interpretação secular literal das escrituras e do Novo Testamento.

Os Romanos é que mataram Jesus

Entrevistado pela revista Menorah, o rabino Eliezer Stauber, dirigente da Sinagoga Kehilat Yaacov, em Copacabana, disse que não viu o filme, mas acompanha a polêmica sobre o assunto. A seu ver, é importante alinhavar argumentos para restabelecer a veracidade dos fatos contados na “Paixão de Cristo”, de Mel Gibson: “Estou mais preocupado é com os judeus – jovens e adultos – que desconhecem a nossa religião em profundidade e podem ser influenciados pelos fatos na interpretação do diretor.

Os judeus com toda a certeza não mataram Jesus. Primeiro, porque Jesus foi crucificado em Pessach e em época de Pessach não havia julgamento. Portanto, o sinédrio não poderia condenar nem Cristo nem ninguém. Segundo, o sumo-sacerdote não se ocupava com assuntos de justiça, como foi o caso de Jesus, e sim com os serviços do Templo. Terceiro, a crucificação era um castigo romano, e não judaico.

Além disso, o próprio papa João Paulo II reconheceu a inocência dos israelitas ao pedir desculpas ao povo judeu pela injustiça de culpá-lo pela morte de Cristo e pelo que isso representou de sofrimento, perseguições e torturas ao longo do tempo. Será que o autor do filme pensou em contrariar o próprio Papa?” Como conseqüência, o rabino Stauber afirma que se este filme traduz erro na atitude do Papa João Paulo II quando absolve os judeus e pede desculpas pelo que fez a Igreja, então o filme é anti-semita, diante de um cenário religioso católico.

Para o rabino da sinagoga de Copacabana, a interpretação de que o Sumo Sacerdote pediu a cabeça de Jesus porque ele estava atrapalhando os negócios do templo, ou porque ele era revolucionário não faz sentido. E explica: “Sempre houve discordância religiosa entre os judeus, à época havia os saduceus, os fariseus, os zelotas e os essênios e ninguém jamais foi julgado, condenado e morto por discordâncias religiosas. Jesus foi um rabino revolucionário, sim, que pregava no seio do seu povo. Mas sua influência na época era pequena e não justificava a punição drástica que sofreu. A expansão do cristianismo foi muito posterior à morte de Jesus e se deu pela pregação de seus discípulos e continuadores”.

Stauber credita a Pilatos a crucificação de Jesus, pelo receio de que a multidão que acorria a Jerusalém durante o Pessach pudesse se insurgir contra os romanos pelos excessos na cobrança de impostos. Ou seja, pelo medo que tinha de perder o lugar de representante romano em Jerusalém (o filme mostra o contrário). Stauber ressalta: “pela minha experiência no Rio de Janeiro, na Faculdade, nas aulas ministradas através de bíblias antigas, há a idéia de que nós seríamos culpados dessa morte, o que não é verdade”. Ele aproveita a entrevista à Menorah para lançar a idéia de que as escolas judaicas devam esclarecer o assunto para os seus alunos. Quem sabe, não fica confuso, diz. Entende a situação dentro do cenário da época em que aconteceu. Não se impressiona facilmente.

Testemunho não foi direto

Na opinião do padre jesuíta, Jesus Hortal, há nove anos, reitor da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC), “não se pode colocar a culpa da morte de Jesus nos judeus. Inclusive o Concílio do Vaticano já definira um pedido de desculpas formal por toda a história de violência e acusações perpetradas contra este povo do qual Jesus Cristo sempre fez parte”. Hortal não viu o filme, nem pretende assisti-lo, mas, pelo que sabe do trabalho de Mel Gibson considera “Paixão de Cristo” um filme realista, literal, transcrito dos Evangelhos (Testamento cristão).

É nesse contexto que o reitor da PUC - Rio de Janeiro faz suas considerações: “Os evangelhos não são um livro de história, de interpretação teológica e catequista. Por isso, o testemunho muda de evangelista para evangelista, devido ao universo público para o qual se dirige. Exemplo: Marcos, que escreveu depois da destruição do Grande Templo de Jerusalém cita os judeus cinco vezes e nele não há conotação de enfrentamento com Jesus” diz padre Hortal. Por outro lado, ele acrescenta: o último evangelho, de São João, foi escrito 90 anos depois da morte de Cristo, ali, a expressão “judeus” aparece 65 vezes e quase sempre com sentido polêmico.

Então, os leitores de João já não sabem sobre os sacerdotes, os saduceus, os fariseus. É por isso que João usa uma linguagem genérica, os judeus. Daí não ser fácil fazer uma leitura sobre a vida de Jesus sem conhecer na prática essas diferenças todas”.

Assim, pondera Jesus Hortal, ainda sobre a morte de Jesus: “eram os saduceus que dominavam o Templo e tinham uma atitude de colaboração com os romanos e por isso, no conflito com Jesus, tentaram desligar o aspecto religioso do caráter político. Daí porque o julgamento final tenha sido com Pilatos. Desse modo, é falso dizer “judeus”, genericamente, ou dar caráter coletivo ao povo por essa morte”.

Ainda sobre o filme, Hortal entende que Gibson cometeu um erro ao escolher o latim como língua falada pelos soldados romanos. Compreende que o cineasta possa ter querido dar a impressão de tempo real ao escolher o aramaico, falado pelo povo judeu, “mas os soldados romanos que serviam em Jerusalém, naquela época, falavam grego, pois se originavam de uma região grega, dominada pelo império romano”. Concluindo, padre Hortal diz: “Trasladar responsabilidades de um grupo para uma única pessoa é incorreto. E mais, uma multidão reunida costuma ser irracional, manipulada. Quando um grita algo, todos gritam.”

Segundo depoimento do médico católico de 34 anos, ex-aluno do Colégio Santo Inácio, casado, dois filhos, o ortopedista Rodrigo Santiago, diretor da Clínica Ortopédica Arnaldo Santiago, é preciso reconhecer quatro aspectos principais na história da morte de Jesus Cristo: literal, histórico, místico e a mensagem de Deus. Conforme entende, no caso da crucificação de Cristo, é um erro de interpretação literal do ponto de vista da sociedade a teoria da conspiração recorrente que vem à baila, por menos verdadeira que ela seja, e um boato que corre e se perpetua há séculos, lembrem-se do caso Dreyfus, bem mais próximo”. Santiago lembra que essa teoria conspiratória, que não tem testemunho direto, nem prova alguma, costuma ser acrescida da idéia de poder dos judeus no mundo. A mensagem mística é que Jesus é o Filho de Deus, nascido e criado judeu, e seria um contra-senso

imaginar que seu povo seria culpado de sua morte. Jesus veio para salvar a humanidade e deixar palavras de amor, união e paz.

Senti-me em Jerusalém com Jesus

Para o padre José Maria Ramirez, espanhol de Salamanca, mas, há seis anos vivendo no Brasil, integrante da “Ordem dos Legionários de Cristo” no Rio de Janeiro e pároco da igreja Nossa Senhora da Misericórdia, o filme de Mel Gibson teve um efeito singular: fez com que tivesse a sensação do tempo real, como se tivesse participado dos acontecimentos, tal o realismo das cenas. Padre José Maria não considerou o filme anti-semita, embora o ache forte e violento, porém fiel ao evangelho.

“Já tinha discutido o assunto da culpa de Jesus com Franco Zefirelli, no filme sobre Jesus de Nazaré, diz o religioso. Gibson fez um esforço para seguir as Sagradas Escrituras. Mas os personagens não culpam os judeus, pois quando Caifás e Anáz, dois sacerdotes, querem condenar Jesus, outros dois integrantes do Sinédrio foram contra julgá-lo à revelia”, pondera padre José Maria, em entrevista à Menorah. No seu entendimento, a morte de Cristo foi resolvida por Pôncio Pilatos porque achava que Jesus estava à beira de liderar uma insurreição contra Cesar. “Inclusive no filme, fiquei comovido quando, em uma cena, um senhora pede a um homem que ajude Cristo a carregar a cruz.” Ele lembra que os evangelhos não culpam o povo pelo martírio de Cristo, ainda que a multidão em Jerusalém que assistia a crucificação pareça ter apoiado a morte de Jesus.

A história ainda não acabou

Para o rabino Rony Gurwicz, da sinagoga Heichal Eliauh, ligado ao colégio Barilan e ao grupo Bnei Akiva “cada povo tem sua história e os cristãos também têm a sua: a crucificação e a ressurreição de Jesus”. Ele indaga o por quê deste fato despertar o interesse de tantos outros que não os próprios cristãos, para responder: “A diferença é que sua história envolve outros povos, alguns romanos e todo o povo judeu. Mas devido às suas peculiaridades, esta história ainda não acabou: uma história de séculos de perseguições, inquisições e massacres”, ele acrescenta.

Conforme o rabino Rony relembra, em 1965, o Vaticano publicou um documento intitulado “Nostra Aetate”, no qual deplora o anti-semitismo e rejeita as acusações de deicídio, feitas por dois mil anos ao povo judeu. Neste documento, o Vaticano não questiona os evangelhos, mas reconhece que seus textos, como quaisquer outros, estão à mercê da interpretação humana. “E, é isso que Mel Gibson faz em seu filme. Conta a história do evangelho sob sua visão artística. Dos quatro evangelhos, um deles não faz nenhuma referência ao açoitamento de Jesus e os outros três trazem uma breve menção. Porém, no filme, tal fato transformou-se em uma cena de nada menos do que 10 minutos de tortura e sadismo (romano, bem entendido). Outra polêmica do filme é a figura de Satã, que aparece quatro vezes ao longo da fita, em duas delas caminhando entre os judeus. Porém a figura de Satã não é mencionada em nenhum dos Evangelhos, muito menos de maneira a relacioná-los com os Judeus.

No entendimento do rabino Rony Gurwicz, existem muitas outras polêmicas e opiniões sobre o filme em questão. Há judeus que não o consideram anti-semita, há padres que o consideram. Mas, qual a lição que podemos tirar de tudo isso? “Nossa melhor resposta a esse esforço de Hollywood é olhar para dentro, para nós mesmos e ter orgulho de nossa própria fé. Devemos mostrar que, para nós, a responsabilidade e o esforço de cada um é o caminho para a realização espiritual. Mostrar que não acreditamos no fato de que alguém possa morrer por nossos pecados e muito menos que D’s exija a morte de um filho seu para apaziguar sua ira. Além do anti-semitismo que possa despertar, a grande polêmica do filme, para nós judeus, não é se fomos ou somos responsáveis pela morte de Jesus, mas sim a definição de D’s e o relacionamento que temos com Ele. Esses são os assuntos que realmente importam e que estão distorcidos na tela”. Conclui, citando Ernest Hemingway: “Em meu entendimento, o judaísmo sob o qual fui criado, ao contrário do cristianismo, é uma religião da vida, não uma religião da morte”.

Na opinião de Herenice Auler, professora de Teologia da escola Mater Eclesiae (Mãe da Igreja) no Rio de Janeiro, destinada a formar estudiosos e catequistas católicos, os verdadeiros culpados da morte de Jesus, fomos nós, (ela se inclui) porque Ele morreu para nos salvar dos nossos pecados. Conforme ressalta, Jesus é amor e só pregou o amor, além disso, veio para salvar a humanidade. Os judeus foram apenas o estopim daquele grupo de políticos, como Caifás e Anáz, do lado judeu, e Pilatos, do lado romano. Quando Pilatos tentou fazer o sinédrio condenar Jesus, Caifás, lhe devolveu o problema, alegando que a acusação de Rei dos Judeus, a ele imputada, era uma questão a ser resolvida pelos romanos. Quem conhece um pouco da história, lembra-se que Pilatos quis colocar a águia romana na Pretória (uma espécie de embaixada), para afirmar o poder de Roma. Os judeus protestaram e Cesar admoestou o Governador da Judéia, informando que não queria mexer com a religião dos judeus. Assim, creio eu, por temer outra reprimenda de Roma, ele, Pilatos, decidiu crucificar Jesus”.

Segundo a professora de teologia, formada também em Ciências Sociais, desde que passou a ensinar educação religiosa, jamais informou a qualquer de seus alunos que os judeus mataram Cristo. Diz que jamais deu, através de seus ensinamentos, margem a qualquer sentimento anti-judaico.

Deturpação histórica e muito ódio

Falando do Rio Grande do Sul, à Menorah, por telefone, o médico e escritor Moacyr Scliar considera uma ingenuidade culpar os judeus pela morte de Cristo. “Cristo nasceu judeu, cresceu como tal e morreu judeu, ainda que na cruz. E pregou para o seu povo, tentando uma reforma da religião judaica. Muitos anos depois de sua morte, grupos usaram o fato como pretexto para perseguir um grupo de pessoas que não era bem visto ao longo do tempo”.

Conforme argumenta, “se o filme de Mel Gibson resolve levantar essa questão de novo, deve ser

visto como um retrocesso e um fanatismo, que equivale ao mesmo fanatismo daqueles que em nome da religião realizaram o atentando contra os trens de Madri, matando e ferindo tantos inocentes.”

Moacyr Scliar acrescenta, para terminar: “Não devemos esquecer que o filme foi feito em Hollywood, tem efeitos especiais, maquiagem e não assegura a verdade histórica, porque não temos nenhum documento direto da vida e obra de Jesus, ou, ainda, nenhum tipo de documentário da época.”

Para o psicólogo e advogado Jacob Pinheiro Goldberg, que falou a Menorah da capital paulista, “os evangelhos devem ser submetidos a várias interpretações, pois não constituem um testemunho direto e sim quatro versões sobre a vida e obra de Jesus”. “O que acontece é que a gente tem que ler os Evangelhos inseridos na época de Jesus e do judaísmo de então. É um absurdo acreditar que os judeus tenham matado Jesus. Tudo leva a acreditar que ele morreu pela impressão dos romanos de que poderia trazer problemas e desafiar seu império. Pilatos temia sublevação, porque a época era terrível e achou que Jesus pudesse ser uma ameaça. A morte de Jesus pelos judeus foi uma terrível farsa imposta pela Igreja, provada pelo fato de que ela se tornou romana. Na época em que Jesus foi crucificado, algumas centenas de judeus também morreram na cruz. Quanto ao filme, “Paixão de Cristo”, de Mel Gibson, assisti-o e achei anti-cristão e anti-semita. Sua temática é um retrocesso, com interpretações das mais retrógradas, racistas e fruto de ódio e a serviço dele”.

Os entrevistados de Menorah, ainda que com vivências diferentes sobre a vida e a religião, apresentam pontos de vista comum: a necessidade de união entre os homens, a concórdia entre os povos, o respeito às diferenças entre pessoas e culturas, no sentido de restabelecer a liberdade, a justiça e o amor não egoísta na humanidade. Não é uma utopia e sim uma esperança. Nesse contexto, o filme Paixão de Cristo não acrescenta tolerância, com suas cenas de brutalidade e abuso do poder temporal de Pilatos. E dificilmente servirá como mensageiro do entendimento.

“A PAIXÃO DE CRISTO”

Ronaldo Gomlevsky

Mel Gibson não é o alvo de nossos problemas históricos com a Igreja. Ator, produtor e diretor hollywoodiano, fez um filme mentiroso. Muito bem. De repente, virou bode expiatório das milenares e falsas acusações de deicídio, promoção de planos de dominação mundial, assassinato ritual, usura, desumanidade, raça inferior, traição, dupla nacionalidade, comércio ilegal, contrabando, lesa-pátria, adjetivos com que nós judeus temos sido definidos e que levaram nosso povo, desde a perda de sua soberania em sua própria terra, há dois mil anos, até os campos de concentração de Hitler, nos anos 40 do século XX.

Passando pelas fogueiras da Inquisição, com direito a paradas sistemáticas nos boxes do preconceito diário, dos assaltos dos nobres da Idade Média aos nossos caixas, dos púlpitos dos padres católicos tendenciosos, nos boxes de tantos governos que nunca nos respeitaram, de tantos Papas que mandaram que nos roubassem, dos pogroms dos cossacos (ataques violentos seguidos de estupros de mulheres e assassinatos de velhos e crianças), chegamos até aqui. A lista é muito grande e nós todos a conhecemos bem.

Mel Gibson, é verdade, fez um filme sobre a paixão de Jesus que entre outras considerações é uma verdadeira sentença condenatória e para sempre contra os judeus (quem mata Deus, deve pagar com seu próprio sofrimento, e eternamente). Nada mais fez do que

retratar, de acordo com sua ótica burra e tradicional, o acontecimento dito histórico. Nenhum espectador deste filme sairá do cinema com impressão diferente. A responsabilidade e a culpa dos judeus da época, pelo crime cometido é absolutamente clara, evidencia o tal filme. Aos homens de boa fé, não é esse novo filme o mais importante. O cerne da questão é o comportamento dos povos católicos, apoiados pela Santa Madre Igreja, contra os judeus ao longo destes dois mil anos. Comportamento este assentado em mentiras deslavadas, que por interesses escusos foram tantas vezes repetidas, que em algum momento acabaram virando verdade. Mel Gibson é apenas mais um que as está repetindo.

Este filme está nos dando uma grande oportunidade de discutir o assunto. Portanto, façam como eu fiz. Vejam o filme, sim. Não caiam nessa de deixá-lo passar em branco. Vejam o filme, formem sua opinião, aproveitem para ler sobre o tema, se informem, debatam com quem for necessário, assumam sua posição de judeus e saiam engrandecidos, definitivamente, dos confrontos que serão necessários travar. Não fujam do tema e muito menos tenham medo.Vamos aproveitar nossa liberdade e fazer o que sempre deveríamos ter feito.Vamos corrigir a mentira histórica que virou verdade. Vamos ao debate. Vamos provar que um povo subjugado por uma potência estrangeira jamais poderia propor qualquer tipo de justiça ao tribunal do conquistador, quanto mais colocá-la em prática. Vamos provar que na Via Dolorosa, não cabia antes e não cabe agora, uma multidão de gente. Basta ir ao local e verificar.

O local é muito estreito, mal cabem cinco pessoas em sua largura. Seu espaço é muito restrito. Vamos provar que um governador romano nada perguntaria sobre nenhum assunto a um Sumo Sacerdote, muito menos lhe pediria para decidir sobre a vida e a morte. Atribuição especial do poder dominante. Vamos provar que os judeus pagavam a Roma, o maior dos tributos financeiros daquela época e constituíam um povo de quase mendicância. Vamos provar que toda a possível pregação de Jesus tinha como alvo a potência dominante que massacrava e espezinhava seu povo, o povo judeu, ao qual pertencia sem nunca tê-lo negado. Nem nos evangelhos. Povo este, antes livre, e naquele momento entregue cativo aos poderosos conquistadores romanos, sem qualquer poder de reação. Vamos provar que não é de nossa cultura, torturar e matar.

Nós judeus, sempre fizemos a opção de morrer ao invés de matar. Quem sempre matou por opção foram os nossos inimigos. Talvez se tivéssemos realmente optado por matar, assim como, por tanto tempo, a Igreja quis fazer crer, e hoje, o mesmo tenta fazer Mel Gibson, nós seríamos os que nos assassinaram e os assassinos reais teriam sido mortos. Seríamos os verdadeiros poderosos do mundo e não os trapos humanos de Auschwitz e do Gueto de Varsóvia. A pura verdade para mim está inserida num contexto de dominação humana, no qual nos permitimos, historicamente, nos colocar como dominados. Esta não é mais nossa condição. Em nosso país, o Brasil, somos livres. Não para censurar filmes, mas para aprendermos a debater e a vencer os debates nos quais tenhamos razão, mesmo neste caso da morte de Jesus, e ainda que no Brasil, a maioria do povo seja constituída de católicos apostólicos romanos.