LEOPOLD Y.
STERN
Houve um tempo em que a gente sabia
quem era Judeu. Mesmo que o sujeito não usasse indumentária típica, ele agia
como Judeu, falava como Judeu e fazia perguntas.
Mas a coisa mudou.
Os Judeus verdadeiros se misturaram
com os não-Judeus. Não se tornaram só semelhantes, mas congruentes. Guardar
shabat? Nem pensar. Eles comem e bebem de tudo. Falam de tudo e de todos os modos.
Aquela ética do Pirkei Avot? Evaporou. Vivem imbuídos do “topa tudo por
dinheiro”.
Tive um vizinho de sobrenome “da
Silva” que passarei a chamá-lo de Carlos. Certo dia, Carlos começou a usar uma kipá
azul. Até então, eu era o único a usar kipá nas redondezas até porque há pouquíssimos
Judeus no meu bairro, e os que estão lá enquadram-se na descrição que acabo de
fazer. Eu perguntei a ele do que se tratava. E ele me respondeu dizendo que descobriu ter ancestrais
cristãos-novos. Por ter ouvido muito essa conversa de “descendentes de
cristãos-novos” por aí, resolvi ir fui mais fundo.
- Ah, sim? E como você soube disso?
- Li num livro sobre os arquivos da
Inquisição Portuguesa que mencionava um David da Silva que foi torturado por
manter costumes Judaicos.
- E ele era seu parente? Quando foi
isso?
- Foi no século XVII. Ele deve ser
um antepassado meu, porque meu bisavô veio de Portugal.
Eu fiquei chocado com a rapidez das
conclusões. “Como pode ser isso?”, pensei.
A vida prosseguiu.
Meses depois, vi uma mezuzá pregada
em sua porta. Depois foram os adesivos de Magen David no carro, segulôt de
grandes rebeím penduradas no espelho retrovisor e outros “sinais”. Enfim,
chegou o dia em que ele me disse:
- Fiz a minha conversão. Agora sou
um descendente de Abraão, Isaac e Jacob legalizado.
- Onde você fez isso? – questionei.
- Numa sinagoga de S. Paulo.
Tornei-me amigo do rabino. Ele e sua esposa fizeram a minha conversão. Tenho
até o atestado em hebraico. Agora posso entrar e sair de Israel.
Sim, ele foi a Israel. Era um
apaixonado pela Terra Santa. Eu já sabia que ele nasceu evangélico e seus pais lhe ensinaram
que a salvação era garantida para os israelitas. Somou-se a isso a leitura da
biografia de Einstein, Freud e outros, além do que, ele sempre comentava da “prosperidade
e riqueza do Povo Judeu”. De fato, após
1948, os israelenses mostraram ao mundo sua capacidade de construção de um estado,
defesa e de governo. Tudo isso são
atrativos para um imenso número de pessoas que desconhecem a realidade e o
esforço que a nossa religião exige no cumprimento de seus preceitos e conceitos.
Ele passou dois anos em Êretz Israel.
Aprendeu hebraico, conseguiu documentos, mudou de nome... e agora, que voltou como
“Judeu legalizado”, até nega seu passado gentio. Sua conversão aconteceu numa sinagoga reformista paulista, de fato aceita pela rabanut de Israel. Ele diz-se Judeu desde que nasceu. E
curiosamente, já começa a deixar aqueles primeiros elementos que o identificavam. Já não usa mais a kipá, come de tudo, trabalha no shabat etc. Tsitsit, nem pensar!
É assim. Os Stein, os Man, os Berg,
os Baum, os Blat, os Owicz, Ovsky e quase todos os outros, dão, agora, seus
lugares para os “da Costa”, “da Silva”, “Oliveira”, “Pereira” etc, etc.
Até em Israel a coisa anda meio estranha.
Todos os árabes falam hebraico, mas quantos Judeus falam árabe? Qual o problema
de um árabe usar kipá e tsitsit e passar por Judeu? Estive lá há dois meses e
não se solicitou meus documentos nenhuma vez em 18 dias de estada.
A identidade Judaica de hoje está
confusa, senão perdendo-se. Baruch
Hashem, não entre os religiosos. Meu receio é que, sempre que isso ocorreu, algum “goy
meshige” engendrou um plano de perseguição e extermínio que nos lembrou de quem
realmente somos.
É ótimo que tenhamos pessoas que
gostem da nossa religião e queiram se converter. No entanto, tornar isso fácil
faz-nos parecidos com tantos que se veem em canais de tevê pregando salvações e
curas!
É uma pena que tenha de ser assim!